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Intérprete de Libras ajuda mãe surda em parto com acessibilidade

BOAS AÇÕES

12/10/2020 15h44
Por: Kamila Reis Fonte: Só notícia boa
Najara, a filha, o pai e a intérprete Valéria - Fotos: arquivo pessoal
Najara, a filha, o pai e a intérprete Valéria - Fotos: arquivo pessoal

Quantas perguntas e orientações são ditas num centro cirúrgico e no pós-parto? Mas, e se a mãe estiver em um país onde não entende a língua e a equipe também não compreende o que ela fala? É isso que acontece com grávidas surdas e a gente que é ouvinte dificilmente imagina como a situação é tensa.

Por sorte, Najara Cabral – que teve o bebê na última quarta, 7 – é amiga de uma intérprete de Libras – Língua Brasileira de Sinais. E Valéria Menezes foi com ela ao Hospital e Maternidade Brasília, para ajudar a fazer a tradução no momento tão importante. 

O hospital não tem intérprete de Libras e Valéria, que também é advogada, usou a Lei de Acessibilidade para entrar com a paciente na sala de cirurgia. Ela contou ao SóNotíciaBoa como isso foi importante para acalmar a mãe e o pai – que também é deficiente auditivo – e ajudar a equipe médica na comunicação com a Najara em momentos cruciais.

Eu ia interpretando tudo que estava acontecendo… como estava pressão dela… teve um momento em que ela se sentiu mal, ficou enjoada… ela falou e eu avisei ao anestesista. Se não tem essa comunicação, como vai avisar que está se sentindo mal? Fui conversando com ela, acalmando também”, disse Valéria.

“No momento da aplicação da anestesia, fui explicando a posição que ela tinha que ficar, como fazer… traduzindo as orientações médicas”.

 

O choro da criança

Quando a criança nasceu, que chorou, eu pude dizer pra ela, ‘tá chorando, eu ouvi o chorinho dela, acabou de nascer’. Eles perguntaram ‘como ela é? Perfeita? Tá tudo bem?’. Aí veio a pediatra fazer as medições e eu fui passando pra eles. Então, é um momento especial e tão importante”, lembrou Valéria.

Na sala de recuperação ela se sentiu mal por conta da anestesia e eu falava pra ela que, o estava sentindo era dentro do esperado, por conta da medicação e que aquilo ia passar. Então, imagina se ela não tivesse esse apoio, como seria?”, questionou a intérprete de Libras.

O apoio de Valéria tranquilizou a mãe e também ajudou os profissionais de saúde.

No quarto vem enfermeiro, nutricionista, pergunta se tem alergia, ou intolerância a alguma alimentação, para montar o cardápio… fala sobre os exames que a criança vai ter que fazer… então toda essa ponte de comunicação é importante. É um direito importante que precisa ser preservado”, alertou Valéria.

 

Tensão

Como toda mãe de primeira viagem, Najara ficou tensa na hora de amamentar a filha.

No momento da primeira amamentação precisei interpretar o que as enfermeiras estavam explicando. Elas ensinam a mãe sobre como ter essa experiência de forma tranquila. Ela já estava no quarto e queria entender por que não tinha descido o leite, tava só no colostro. Fui explicar pra ela o que ela o colostro, pra ficar calma, que estava tudo bem”.

Outro momento importante da comunicação foi quando o bebê foi retirado do quarto e a mãe não entendia o que estava acontecendo.

Valéria já tinha ido pra casa dela, cuidar do filho que é autista. Foi preciso fazer uma chamada de vídeo para a interprete ajudar novamente a amiga.

Tinham levado a bebê para fazer exames. Ela não sabia o motivo e ficou muito nervosa. Eu fui explicar que eles estavam desconfiando de icterícia… que ela ficasse calma. Ela estava nervosa porque ninguém conseguia se comunicar com ela”.

 

Por amizade e respeito

Valéria lembrou que fez tudo isso por amor à amiga.

Aqui em Brasília a gente não ouviu falar em nenhum parto de surda que tivesse uma interprete participando. Eu não fui contratada pelo hospital. Ela é uma amiga minha e eu fui porque queria dar a ela e experiência que nós ouvintes temos de respeito, pra que ela se a sentisse acolhida, segura naquele momento importante”. concluiu Valéria Menezes.

Najara Cabral tem 33 anos e mora do Recanto das Emas, a 30 Km do Congresso Nacional, em Brasília. Ela ficou surda aos 4 anos por sequela da meningite e trabalha como digitalizadora.

O Pai, Joaquim Araújo, de 31 anos, é morador de Ceilândia e ficou surdo depois de uma queda aos 4 anos de idade. Ele também trabalha terceirizado como digitalizador.

 

A bebê

O parto da pequena Thalia Gabrielly foi um sucesso.

A menina fez os exames e é ouvinte!

Mãe e a filha já voltaram pra casa.

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